Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Travessa do Despertar

Toco sua pele invisível, o escudo mais perfeito que um enamorado já venceu, os poros exalando infinito como se cada suspiro fosse um orgasmo seu, uma caixa dentro de outra caixa, um presente interminável de se abrir, a cada camada uma forma mais envergonhada de sorrir, uma risada sem graça embalada no barulho dos papéis de presente como chuvas laminadas a cair.

Cubro com minhas mãos seus dentes escondidos, a alegria acobertada pelo brilho triste de seu batom a desaparecer, a língua mordida pelas palavras que você sempre quis mas nunca teve capacidade de dizer, as promessas que só soam bonitas pelo telefone, as tiradas meio cínicas que necessitam de soslaios para que funcionem, as garafunhas pregadas com mil beijos na tela escura da TV.

Persigo suas pernas em minha memória, as curvas de seus joelhos quase cobertas por seu vestido, o barulho dos saltos em cada vez mais distantes estalidos, uma flor de crochê tão acariciada que já se soltou, suas digitais espalmadas em um muro, marcadas quando uma das sandálias se quebrou, quando te prometi um mundo e ele simplesmente não se materializou.

E você anda sem mim distraída, pelo mundo que antecede o que virá, você anda sem mim por uma vida enquanto la petite mort nos espera para tudo mais ultrapassar, seja para desembarcarmos em uma nova avenida ou nos encontrarmos novamente no mesmo bar, entre sussurros e bebidas, entre o suspense e o respirar.

Toco sua pele invisível, cubro com ninhas mãos seus dentes escondidos, como os joelhos que quase escapam de seu vestido enquanto caminha distraída para o mundo que virá, onde te encontro na esquina entre a rua onde durmo e a travessa do seu despertar, onde escova os seus dentes sonolenta no mesmo espelho no qual me corto ao barbear.

ADOLFO COLEN às 1:11 AM






Segunda-feira, Março 24, 2008

BPM

Eu sempre soube que a terra vermelha era sangue em pó, a água da chuva lentamente obstruindo os caminhos em grandes coágulos sob meus pés, o barro marcando a varanda como batidas do coração, as taquicardias da minha pressa em encontrar você, o escorregão na pedra fria uma simples e inesperada arritmia, como o sopro das pegadas na parede que anunciam onde eu finalmente desabei.

Eu procurei simplesmente por você, nas artérias das cidades esquecidas, em um mundo grande demais para se entender, onde as esquinas são tão largas que basta uma meia volta ao mundo para as percorrer, entre a rua do desejo e a avenida das oportunidades perdidas, voltando sempre onde uma linha de eterna partida feita de giz finge pela chuva desaparecer.

Eu procurei simplesmente por você.

Nos arbustos de frutos com sumos dos mais estonteantes, nos orvalho congelado em suas cascas brilhando à luz da manhã como diamantes, a displicência com os que afastava para morder, as pedrinhas de gelo derretendo sobre a terra vermelha, como eletricidade ressuscitando um velho monstro que somente fingia morrer, antecipando as risadas que daria enquanto eu imaginava serem somente as folhas se afastando para melhor o vento as conhecer, os veios desejosos de seiva clara e viscosa, das flores que despetaladas se renovam em um eterno ato de voltar a amar.

Eu sempre soube que a terra vermelha era sangue em pó, e que as molhando com minha saliva eu podia conseguir uma transfusão, o sangue que corre na beirada da cidade se ligando intermitente com a fonte pulsante que irradia do centro do seu coração.

Eu procurei simplesmente por você, seguindo no punho da terra a aproximação de seu corpo, pelas folhas e pelos troncos, pela seiva de sua têmpora, pela sua pulsação.

ADOLFO COLEN às 11:31 PM






Segunda-feira, Agosto 13, 2007

Intercessão

Eu vi nesse mundo meu reflexo, e nunca soube com que careta certa mimetizar para conquistar minha própria confiança, pois desde criança só soube querer ser feliz, ter um futuro sempre amplo se abrindo pela ponta do nariz, e ir aonde minha próprias brincadeiras pudessem me seguir.

Eu sempre acreditei no caminho, pulando de estrela em estrela, de linha pontilhada a outra do asfalto, me esquecendo do mistério da substância negra que superava a cada salto, afinal estava somente de olhos fechados, e como num beijo apaixonado somente me permiti sentir o mais gostoso, o melhor.

O algodão doce seco e melado em meu rosto, o aftertaste de seu corpo em forma de gotas orvalhadas de suor.

Eu me esqueci dos mistérios do piche negro do asfalto, do vazio entre as estrelas que piscam não importam se eu as exclamo ou se me calo, e um dia tudo isso podia me pegar, a estrada podia ter uma curva muito fechada, o salto entre as estrelas poderia ser muito curto ou eu poderia simplesmente me cansar.

Mas quando isso aconteceu, meu amor, você estava lá. Eu não pedi, eu não imaginava, mas você estava lá.

Porque enfrentar o medo, esse sentimento não foi feito como garra que se esconde até o momento de nos ameaçar, ele cresce de repente, como o dia em que se entende que há uma vida inteira pela frente, e você não se sente apto a enfrentar.

O dia em que todas as promessas de braços fortes tremem, em que todas as palavras e opiniões firmes se confundem em uma torre de babel, quando toda caneta forte escreve como rascunhos descartáveis em resmas voadoras de papel.

Mas você estava lá, e eu nunca havia imaginado, a força que se esconde do seu lado.

Eu vi nesse mundo meu reflexo, e nunca soube com que careta certa mimetizar minha própria confiança, pois desde criança só soube querer ser feliz, e quando de alguma forma me distorci, pude olhar pro lado e lhe ver, fazendo caretas opostas às minhas, uma forma benigna de feitiçaria, abrindo o mundo de nossas pontas de nariz, em cada centro uma intercessão.

E agora amor, eu me sinto preparado pra mais mil anos, eu te amo, pra sempre, e de todo coração.

ADOLFO COLEN às 12:30 PM






Segunda-feira, Maio 14, 2007

A Banda Imaginária

Não existe remendo, esse mundo não é amar ou deixar, cada sala vazia não espera sozinha que os móveis cresçam entre as tábuas do piso e nenhuma varanda apagada acalenta namorados sem a luz do luar. É que você senta e espera, balança pelas cadeiras que rangem com o peso da idade, os sapatos confortáveis gastos somente pela metade, e se pergunta quantos quilômetros ainda tem que andar.

E se me perguntasse, menina, eu não saberia, já que eu prefiro que meus pensamentos ressoem em surdina, numa canção de silêncio que somente minha banda imaginária pode tocar, eu prefiro a preguiça matutina do que a hora mais rígida em que eu possa me deitar, eu me espreguiço todos os dias bocejando em seu ouvido meu amor por você, as mãos que abraçam a casa de todos os pensamentos conflitantes que algum dia você teve e ainda vai ter, os pés encostados transportando o calor de minhas meias para as pedras de gelo que você cria andando descalça olhando a bebê.

São nossos pés que andaram esse tanto, são esses pés que ainda têm tanto chão pra percorrer.

Então não existe remendo, esse mundo não é amar ou deixar, essa casa não é descansar ou acordar, esses dias não são somente deixar e viver, cada estrada não espera sozinha que nasçam flores do asfalto, cada parque não espera ansiosamente um descampado, ninguém espera que um amor procure sua própria solução, é um mistério dentro de outro, é um beijo que se adia um pouco para que sempre haja um pouco de antecipação, é assim que deve ser.

E a cada dia antecipo mais um pouco você.


ADOLFO COLEN às 10:17 PM






Sábado, Abril 14, 2007

Correspondências do Front: Lazer e Recreação.

Ei,

Me lembro de todos os táxis que pegamos, aqueles bancos impessoais onde nos escondiamos da cidade pelos cantos a ressonar, os pingos de chuva projetando cicatrizes na pele que não ardia, na cidade que na madrugada mais vazia insistia em arranjar becos sem saída para nos despistar.

Em cada bairro uma ladeira, em cada ladeira um bar, em cada bar uma mesa semi-vazia, em cada mesa uma cadeira fria para a solidão de alguém te acompanhar. Os cigarros que se acumulavam pelas quinas, tanta saliva desperdiçada pela maneira mais ausente de se sugar, os dedos manchados de nicotina estalando isqueiros que morriam soltando faíscas sem nunca realmente se inflamar.

O espelho atrás do balcão te refletindo, ereto esperando algum terremoto para te balançar, os olhos que retornavam vida e luz de um lugar escuro, que de onde se origina não há caminho para ensinar, se nasce assim, não há cartilha ou ferida que se inflija para nos mudar.

O coração próximo da boca. Não há bebida que o faça descansar.

Me lembro de todos fantasmas que atropelamos, tantos e tantos nos atravessando enquanto dirigíamos pela cidade sem pouso e sem lar, os cabelos da nuca se arrepiando a cada conto que inventávamos para os mendigos que vagavam medicados de loucura, a perda da inocência e da doçura que precisou em algum momento do relento e da amargura para se retomar.

Eu me lembro. Não há bebida que faça isso tudo descansar.

Todos os táxis que pegamos, nossas mãos se buscando entre os bancos impessoais nos escondendo pelos cantos do espelho retrovisor, os pingos de chuva projetando matizes onde era tudo gelo polar, seus olhos frios me dividindo em duas na cidade que insistia em criar labirintos para nos despistar.

Vamos, um brinde. Para que eu não possa descansar.

Clara.




ADOLFO COLEN às 12:12 AM






Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

De Mentirinha

Eu, quando decidi conhecer o mundo todo, era muito novo para conhecer os meus limites, e muito velho para deixar para lá, e esquecer. Então eu cresci no impasse, entre a tábua da salvação e a tábua da beirada, entre a avenida larga e a encruzilhada, entre o pé no chão e o boitatá. Eu cresci fingindo ser largado, gato vagabundo que viceja sem cuidados, mas sempre com alguém mais responsável a me vigiar.

Eu cresci, sem dourar muito a pílula, como uma criança normal em minha época deveria, metade jogada ao deus-dará e metade escravo buscando alforria.

Cresci esperando ser feliz quando eu crescesse, para acompanhar a felicidade que nos pertence, mas que alguns diziam ser limitada em um quinhão para cada pessoa, uma parte do destino do qual não podemos abusar, uma mentirinha que no início parece boba, mas que no fim do dia tem um potencial incrível para nos estragar, já que quando não buscamos a felicidade que parece ser de outra, corremos o risco de nem de nossa fração participar.

Eu aprendi a querer de tudo, um pouco aqui e uma pitada lá, não correndo cegamente de mãos dadas com um futuro que não sabe aonde realmente vai chegar, estocando a comida pros dias frios mas nunca esquecendo da hora em que nos calha mais cantar.

E então olho para seu berço, meu pequenino grande amor, suas caretas e sorrisos em um sonho que imagino envolvem sorrisos de mães, abraços de pais e rios, rios de leite, e imagino qual irá ser sua forma de alforria.

Canto a mesma canção que minha mãe cantava, faço as mesmas brincadeiras que meu pai fazia, eu sou um produto do que o mundo me fez entre o carinhos de quem eu mais amava todos os dias, um "eu te protejo de tudo" misturado ao "deixe que ela descubra sozinha". E mesmo assim, um dia pedi licença, e tive que sair, mesmo que para meus pais ainda pareça de mentirinha.

Com o coração apertado de medo, com pitadas (muito pequenas) de alegria, eu lhe pergunto: Qual será sua forma de alforria, minha filha?

Bom que ainda vai demorar, e que bom que vai ser de mentirinha!

ADOLFO COLEN às 1:53 AM






Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

Cavaleiro da Lua

Tem dias que me sinto como o cavaleiro da lua, que escorrega quando o satélite em fase nova se torna uma fina fatia em cunha, um invasor de bandeiras de países onde o ceticismo ainda tem cura, mas onde acreditar em tudo é mais perigoso, nessas terras do outro lado do mundo, vizinhas das terras onde se fabricam os sonhos.

Porque ao lado do sonho sempre tem alguém que se recusa a imaginar, ao lado do sopro sempre existe aquele que só sabe sugar, próximo ao hoje sempre existe aquele que evita a todo custo a incerteza do que virá.

Sempre existe aquele que vê a lua nova e se pergunta se ela nunca mais irá voltar.

Mas aqui eu disfarço minhas palavras como a brisa quente que vem do lado norte, palavras de carinho encouraçadas com as armas de São Jorge, que de tão polidas refletem o seu rosto nos acentos circunflexos, as sobrancelhas arqueadas como tônicas de todo o verbo que significa uma forma de amar.

Do apaixonar-se da lua nova ao beijo pleno da lua cheia, do tempo presente da lua crescente à saudade da minguante, o tempo tão próximo e o tempo distante em um ciclo eterno a se reciclar, o cavaleiro altivo da lua inteira cavalgando sem medo no abismo até a beira, onde a terra decrescente o obriga por um tempo a recuar.

Porque se hoje ainda não é dia de lua cheia, não há problema, não há problema, ela sempre irá voltar.


ADOLFO COLEN às 1:14 AM






Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Sobre...

É na maioria das vezes a vida que acontece com a gente, o tempo se desfazendo no horizonte distante emoldurado por avenidas divergentes, a esquerda ou a direita somente uma decisão que no fim da estrada parecia certa e que não exatamente se escolheu. É somente o caminho que tomamos, e não havia solução mais concreta, ou melhor, ou mais desperta, do que a maneira como o sonho de vida transcorreu.

Porque somos pessoas encantadas, que sonham o tempo todo com as pálpebras abertas, moldando a vida inteira com as mãos descobertas, somos a caneta e as cartas que foram escritas em garrafas que do outro lado do mundo se leu. Somos as frases de amor que os jovens repetem nas madrugadas, sem entender ao certo se o que sente é verdadeiro ainda ou se é uma linda bravata, um beijo que queima na pele mas em algum momento se perdeu.

Somos pessoas valentes, enfrentando os dias em que nascem alvoradas em seguida de cada sol poente, a noite os interlúdios onde se vive realmente entre banhos felinos de luar, somos aqueles que tocam em frente, evitando o descanso e o tédio pelo simples ato de ter um corpo alheio onde se possa encostar, dizendo "Eu vivo, você vive" entre beijos, toques e risadas que nunca desistem de aflorar.

Somos gente como a gente, e não deixamos um clichê incomodar.

Nas rodovias divergentes, encontramos amores distantes e plantamos sementes que darão frutos que nossos filhos irão colher, quando os caminhos se invertem e de alguma maneira convergem para onde começamos a viver, pais dizendo às suas crias "eu existo, você existe", e "pode ir em frente, você não vai se arrepender".

Você nunca vai se arrepender.

ADOLFO COLEN às 12:30 PM






Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Bem Vinda

Quando ela nasceu, eu falei bem baixinho em seus ouvidos: Bem vinda ao mundo, menina. Mas falei bem baixinho mesmo, temeroso que o mundo realmente pudesse ouvir. Parece egoísta, eu sei, querer que ela vivesse no meu mundo particular por somente alguns instantes, mas às vezes esses instantes são as coisas mais bonitas de se guardar.

Eu nunca pensei que pudesse querer proteger alguém do mundo lá fora, sempre fui adepto do lema viva e deive viver. Eu sempre acreditei que as feridas causadas são necessárias para o crescimento, e minha parte (ainda) racional não mudou de opinião: as cicatrizes que mostramos são batalhas que vencemos, e que apesar de terem tirado um pedaço da gente, acrescentaram algo que nada além do mundo pode te dar: experiência.

Mas vendo a pele dela tão fina, tão clara, tão limpa do mundo, algo dentro de mim mudou. O amor que se sente pelos filhos não vem aos poucos, crescendo como todo amor que julgava conhecer. Ele queima branco, quente, não cresce. Ele nasce imenso.

Quando a peguei no colo pela primeira vez, depois de limpa, pesada, com roupas quentes e confortáveis, essa necessidade de proteção em mim não desapareceu. Ela cabe deitada no meu antebraço, e ainda não vê o mundo com todas as cores que um dia vai conhecer. E mesmo quando conhecer as cores, quando só couber em um abraço, quando desejar ver o mundo que suspira baixinho a saudade de uma vida que ainda não aconteceu, ainda sentirei a mesma coisa, a mesma necessidade.

De protegê-la com unhas, dentes e tudo mais que eu tiver ao alcance de minha mão.

Então hoje eu disse um pouco mais alto em seus ouvidos: bem vinda ao mundo, menina. E um pouco mais alto disse ao mundo: tome cuidado com o que faz. Posso não estar sempre preparado, mas em tudo que puder fazer, vou te vigiar.

Bem vinda ao mundo, Alice. Seu pai te ama, e nunca vai deixar de te proteger.

ADOLFO COLEN às 1:55 PM






Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Alice
Alice.jpg

Nasceu dia 12 de Novembro, com 48.5 cm e 2.950 kg a menina mais esperada de nosso mundinho aqui. Eu e a Ju não podíamos estar mais felizes.

Depois voltamos!

ADOLFO COLEN às 12:53 AM






Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Jóias

Veja, seu brinco em minha mão se parece com uma pequena tulipa, a tarracha em folhas que giram e giram dançando ao ritmo da luz, pólen de ouro dividindo o reflexo do sol entre seus olhos e os meus sob campos elísios e azuis.

Olhe, seu anel em minha mão gira como um carrossel sem cavalos ou carruagens, somente as criaturas invisíveis que inventamos dançando pelas mais escondidas passagens entre meu pensamento e o seu, assoviando canções que inventamos crianças e o sono da idade escondeu.

Veja, seu colar em minha mão pende levemente agitado como o mar em noites de lua nova, quando as algas fluorescentes reinam majestosas iluminando em voltas tatuadas nossos pés, nosso beijo oscilando em ataque e defesa como o capricho das marés.

Olhe, sua história em minhas mãos, o que te conto e o que decido inventar, o que entendo nas entrelinhas e o que nossas crianças ouvirão na hora de deitar.

As nossa jóias.

A estória,

Sua vez de contar:



ADOLFO COLEN às 12:50 AM






Domingo, Agosto 27, 2006

Ensolarar

Existem pessoas que falam dos ciclos com muxoxos e esgares de cínico, e de alguma forma eu sempre os tento compreender, os que andam com nuvens negras amarradas no umbigo e que a cada abraço fazem o frio na barriga crescer, aqueles que trovejam os signos não como prováveis caminhos, mas como características tatuadas em nossa pele que se recusam a desaparecer.

Existem os que só vêem no inverno os banhos frios, e dos verões a areia escaldante, da primavera a alergia e do outono a brevidade de todo instante.

Quando para o nosso tempo não existe para climas particulares, não porque chovo ou amanheço, vento ou entardeço, sou simplesmente eu, aquele que abre os braços para a chuva, que anda contra o vento em luta, que entende o sol baixar ou subir sintomas da vida e de seus complexos cíclicos de malabares e culpas, o ato contínuo de viver essa vida sem nunca saber a direção do tapa ou a marca que vai causar. De nossa capacidade de mudar o clima, sinto muito, eu me esquivo.

Eu somente acredito no ato de ensolarar.

Porque em algum lugar na noite passada minha menina dormia, com outra menina sonhando em sua barriga, sabendo que pela teia onírica vai sempre me alcançar, seja por uma simples mudança de lado, pela criança que vai à escola e me encontra ao caminho do trabalho, nas viagens que nunca conseguiram nos afastar.

Porque em algum lugar sempre haverá nosso lugar, aquele que se chama casa, aquele que se chama abrigo, aquele onde ossos cansados sempre podem descansar.

E se lá faz calor ou se faz frio, não importa se amarro uma nuvem ou uma lua no umbigo, ainda vou estar lá, com os braços abertos para a chuva, andando contra vento em nossa luta, dizendo que ainda acredito no ato de ensolarar.

ADOLFO COLEN às 11:41 PM






Terça-feira, Julho 04, 2006

Pistas Preguiçosas

Tenho quedado, tendido a ficar nas pistas preguiçosas, os pés devidamente agasalhados do lado de fora da janela do carro, sentindo entre o grande e o pequeno dedo o sopro frio da vida de junho passar. É que não adormeço nem conto carneiros, eu somente sinto subir aos joelhos o tépido beijo de uma manhã de inverno chegar, somente guardo segredos que se preservam mais saborosos em um dia quase polar, as pétalas fechadas de nossas línguas escondendo balas de menta, o pólen-refresco para aquele momento delicioso que antecede e acalenta o momento certo de se espirrar.

É que tudo parece mistério embaralhando meus cabelos, como se não liberasse os pensamentos não por falta de desejo, mas por estarem simples e irremediavelmente presos entre o que leio e o que decido interpretar. Eu só quero estar com meus dedos descansando entre seus dedos, como em uma maré subindo e descendo no vale mais profundo entre seus seios quando começo a acordar, seus olhos fechados e a mente aberta aos devaneios que somente uma noite longa de inverno pode nos dar.

E é nesse momento que percebo os rastros que todo frio tende a causar, pequenos cúmulos formados por bocejos e nimbos deslizando como veleiros em um leve e contínuo suspirar, cada expiração um novo segredo que cada olho pode a sua maneira interpretar, como quando nos sentamos pela grama e tentamos dar nomes de bichos a cada ofegante assovio que sopramos em ritmos de uma canção, a mutabilidade de toda vida dependendo da minha e da sua imaginação.

Eu e você, e nossa relação.

Nossos pés devidamente agasalhados dependurados pela porta de um carro.

O inverno e o ar transformado em algodão.



ADOLFO COLEN às 2:50 AM






Domingo, Junho 04, 2006

Ela sempre ri da minha mania de dormir com meias nos pés, mas não percebe que hoje em dia é só uma mania, e nada mais. Agora tenho pés que me esquentam à noite, da maneira que sempre devia ser. Os hábitos da solidão são difíceis de se livrar, como o cigarro que hoje em dia só fumo nos sonhos recheados de desejos do que é bom na hora mas te faz mal depois.

O cotidiano de casado não é necessariamente cotidiano, eu agora sei o que querem dizer. Não existem espaços para rituais diários, porque ser dois acrescenta variáveis que são infinitamente mais difíceis de se prever. O tédio e o ócio passado a dois dificilmente se mantém, pois um suspiro de cansaço prolongado pode dar vazão á gargalhada presa na garganta, por um afeto invisível a quem é de fora.

As piadas internas são um dos sinais mais claros da intimidade.

Quem lê isso agora pode imaginar uma certa distância entre o que escrevia aqui e as coisas que estão falando agora, mas não vão embora ainda, porque sonho com rimas, e imagino textos prontos em um banho prolongado de chuveiro.

É que o blog está aqui dentro, e eu e a Ju estamos lá fora, nos encaixando nos quartos secretos da casa nova, descobrindo o prato preferido nas noites de inverno, escovando os dentes lado a lado trocando os olhos no espelho.

Nós nos reconhecemos, agora estamos nos entendendo.

As rimas pouco a pouco voltam, mesmo que sejam efêmeras e comoventes como as que se escrevem nas janelas embaçadas pelo vapor do chuveiro. Vocês sabem do que eu digo: aquelas palavras que passam rápidas como o vento, mas marcam de forma inexplicável o momento.

Até mais.

ADOLFO COLEN às 9:56 PM






Terça-feira, Abril 18, 2006

Infinito ( For a Girl, For a Boy, For a Little Baby)

Oi.

Eu encontrei você pela ponta de meus dedos. E no momento nem sabia.

Eu somente escrevia.

Não eram cartas dentro de garrafas, porque nunca fui náufrago, e nunca em um dia desses eu desejava me salvar. Eu somente escrevia o que havia dentro, algumas palavras que rimam, outras que se entrelaçam mais ou menos. Vê, certas vezes eu não consigo evitar.

Mas hoje eu não preciso de um ritmo certo pra lhe falar as coisas, porque posso falar diretamente com você. E tudo por causa de meus dedos, do que eles insistiam em traduzir para palavras colocadas em um canto obscuro da rede mundial. Posso não ter colocado as cartas na garrafa, mas de alguma forma você as encontrou, não perdidas em alguma praia isolada, mas presentes no seu trabalho, na sua casa, elas perseguiam você onde quer que estivesse. Você chegou a imprimir uma delas no papel, colocar na sua bolsa, como uma lembrança de boa sorte, o seu próprio patuar.

E eu nem sabia ainda, você me entende, eu somente escrevia. Eu nunca poderia imaginar.

Mas de um recado insuspeito, de um contato que parecia etéreo, eu comecei a tomar conta de meus próprios dedos, eu comecei a imaginar. Eu conversava com você sobre sopas de ervilhas, sobre músicas e poesias, eu imaginava a cor do quarto em que toda noite ia dormir. No lugar onde seus dedos também trabalhavam, eu comecei a imaginar. Havia uma frase em seu perfil, em que dizia " Eu quero: V o c ê".

Eu queria ser V o c ê.

Eu disse uma vez que éramos duas pessoas em distantes apartamentos, tocando um ao outro pouco a pouco em pensamentos. E escrevi o Infinito, que era para uma garota que só podia ser você. Eu disse tantas coisas, não mais pela ponta de meus dedos. Eu disse do fundo da garganta, onde a carne faz palavra, e não ao contrário. Não somos verbos, somente atos, e no momento inicial o meu foi de fugir, de se esconder.

Mas você não deixou, você jogou tanta coisa fora para tentar, e eu tinha tão poucas coisas que eram valiosas para se descartar. Eu era o único habitante de minha vida, e você tinha tantos vizinhos que nunca podia acordar de madrugada, abrir a janela e gritar.

E apesar disso, ou por isso mesmo, decidimos nos encontrar. E do encontro, começamos a namorar. E como naquela carta que você guardava na bolsa, sempre foi muito mais bom do que regular. E nós nos misturamos, não foi?

Você pôde abrir a janela na madrugada, e gritou. Eu aprendi a ter vizinhos. Você pôde guardar as coisas. Eu aprendi a deixá-las ir.

Se isso não é amor, então nada mais é. E agora esse amor se multiplicou, e o que eram dois irão ser três.

No dia do descobrimento do Brasil, nós vamos no casar. É engraçado imaginar que os portugueses não exatamente nos descobriram, eles sabiam que algo devia haver por lá. Acho que é justo dizer também que quando escrevi todas as cartas, eu também sabia que havia alguém lá fora que também valesse à pena descobrir, eu só não imaginava que minha viagem cega pelos oceanos fosse dar em você. Uma terra de riquezas, que me ensinou tanto quanto aprendeu.

Veja bem, eu não estou omitindo nada, eu nunca poderia imaginar você. Mas você existe, e mudei minha casa para a nossa. Meu dedo agora tem a aliança, que vai para a mão esquerda, em linha mais curta para o coração.

Eu nunca poderia imaginar você, mas ainda assim você existe, ainda assim você é.

Você que ser minha esposa?



ADOLFO COLEN às 1:24 AM








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